JOCKEY: 145 ANOS E UM MISTÉRIO
Luiz Renato Ribas

“Convido os habitantes desta cidade de todas as nacionalidades para uma reunião que deve ter logar amanhã na casa da câmara municipal
às 6 horas da tarde afim de tratar de fundar um club de corridas de cavallos. Curityba, 29 de novembro de 1873” (a) Luiz Jácome.

Anúncio publicado no único jornal da época no Paraná, o “Dezenove de Dezembro”, sob iniciativa do hipólogo gaúcho coronel Luiz Jácome de Abreu e Souza, que se exibia em praça pública, com sua habilidade de domador, e eleito presidente honorário do novo Jockey.
O major Manoel Marcondes de Sá, foi o primeiro presidente, de fato, do hoje Jockey Club do Paraná em 2 dezembro de 1873.
E, assim, nascia há 145 anos o “Club Paranaense de Corridas”, hoje Jockey Club do Paraná, história preservada legitimamente, através dos tempos, pelos turfistas pioneiros, das famílias de Marcondes de Sá, Agner, Borba, Schimelfeng, Menezes, Ferreira da Luz, Lustosa, Souza Castro, Ribeiro, Schelenker, Todd, Weigert, Rompfeld, Moreira de Freitas, Martins Lopes, Mota, Bittencourt, Bowe, Dietzch, Macedo, Gineste, Campos Lima, Pessoa, Andrade Neves, Muller, Mayer, Guimarães, Weiss, Loureiro, Drumond Reis, Cerqueira Lima, Cerqueira de Menezes, Gois Artigas, Muricy, Fontoura, Valente, Ribas, Pinheiro Machado, Glaser, Virmond de Lima, Gusso, Piotto, Gutierrez, Athaide, Amazonas Lima, Ferreira do Amaral, Alves de Camargo, Barreto, Kosop, Bettega, Mehl, Munhoz da Rocha, Bertoldi, Camargo, Lupion, entre tantos outros clãs paranaenses de nossos dias.
No dia 14 de janeiro de 1874, o secretário Nestor Borba, fez uma advertência pública aos sócios:
“... será publicada neste jornal a relação de todos aqueles que se inscreveram com declaração daqueles e se recusaram fazer o pagamento da joia e mensalidade (os quaes ficam excluídos na forma dos estatutos), para que o público conheça quem são os amigos do progresso de nossa província...” (“Dezenove de Dezembro”)
Seguiram-se alvoroçadamente, já no ano seguinte (1874), os preparativos para a realização da primeira reunião turfística do primeiro clube de corridas de cavalos do Paraná:
“Amanhã, 31 de janeiro, às 3 horas da tarde terá logar a inauguração do Prado Jácome, como uma brylhante corrida de amadores. Os srs., que inscreverem seus cavallos queiram apresentar-se à hora marcada para arranjarem-se os páreos”. (jornal Dezenove de Dezembro)
A primeira corrida com quatro cavalos, três páreos, numa pista de 1.700m, no Prado Jácome, que se localizava no asilo, Hospital Psiquiátrico Nossa Senhora da Luz, na Marechal Floriano Peixoto.


“Quinta-feira última, às 4 horas da tarde, perante numerosa concurrência, inaugurou-se o Prado Jácome... surpreendeu o povo que não conhecia se não as carreiras do paiz no cavalo em pelo com o cavaleiro quase nu.” (“Dezenove de Dezembro”, 1874)

O Mistério - Prado Jácome, 31 de janeiro de 1874, com uma multidão, na arquibancada e nas cercanias, inaugurado em apenas 60 dias, depois da fundação do “Clube Paranaense de Corridas” em 2 de dezembro de 1873, com uma pista de 1.700m. Uma construção que exigiria na época, com certeza, um mínimo de um ano, e sem chuvas. Indício claro de que as obras começaram muitos meses antes da criação oficial do próprio Jockey. O que pressupõe, a provável já existência regular de corridas em cancha reta e, provavelmente, no próprio local, que seria batizado depois de “Prado Jácome” em janeiro de 1874. Não há referências históricas e nem testemunhas vivas - por óbvio - da data em que o prado e a raia realmente começaram a ser construídos.
Durante o ano eram poucas as reuniões, por causa da chuva que tornava a pista um lamaçal impedindo as corridas, que muitas vezes programadas para as 4 da tarde, mas diante da ameaça de temporal, eram antecipadas para o meio dia.
O público era conduzido para o hipódromo num trenzinho, puxado por jumentos de carga, que saia da Rua XV, esquina com a Barão do Rio Branco, defronte mais tarde a antiga sede social do Clube Curitibano.


Em 1882, o “Jácome” muda o nome para “Prado Paranaense” e em 1887 para “Prado Curitybano” com arquibancada maior, porém, ainda no mesmo local original de 1874.

 


Em 15 de junho de 1889 surge em novo local, o Hipódromo do Guabirotuba cuja arquibancada de madeira para 700 pessoas, foi inaugurada em 18 de agosto, na presidência de Ernesto Campos Lima.

 

Nossos cavalos, na década de 1900, viajavam de navio, via Paranaguá, para correr no Rio de Janeiro e São Paulo (Prado da Móoca) e depois por via férrea, com a construção do primeiro vagão ferroviário, em 1928.  
Um dos primeiros cronistas de turfe foi Júlio Eduardo Gineste, em 1887; Parailio Borba e Pedro Lagos Marques, em 1930; Pedro Stenghel Guimarães, em 1934. A primeira Associação de Cronistas de Turfe do Paraná - ACTP, existente até hoje, foi criada, em 1937, pelo advogado e jornalista Francisco Castellano Neto.


O turfe reinou absoluto até 1908, como único entretenimento esportivo público da cidade, quando 35 anos depois surgiu oficialmente o futebol, com a fundação do Coritiba F.C., cujos treinos eram realizados na redoma central (foto da maquete) do prado do Guabirotuba, alugada ao Coxa pelo Jockey Club Paranaense.

 


A primeira arquibancada de alvenaria do Hipódromo do Guabirotuba (1889) foi reformada e ampliada em 1928 e inaugurada em 2 de junho de 1929, na presidência de José Cândido Muricy, com a presença de “Miss Paraná”, Didi Cailet. Em 22 de novembro, se realizou a última corrida no Guabirotuba, o GP “Encerramento”, vencido por Humorada, dirigida por Macedo de Freitas, treinada por Rubens Gusso, de propriedade do presidente do Jockey Club do Paraná, Pedro Alipio Alves de Camargo.

 


No dia 10 de dezembro, a inauguração do moderno Hipódromo do Tarumã, cuja prova inaugural foi vencida por Miguel Ângelo sob a condução de Pierre Vaz. Um hipódromo moderno, cuja arquitetura do engenheiro Edmir D’Avila foi considerada uma das mais arrojadas da América Latina.

O Jockey Club do Paraná sobreviveu, recentemente, de 2006 a 2015, a maior fase negra de sua história, com a cassação de sua carta patente original (13), com a delapidação criminosa de seu patrimônio que exigiu intervenção judicial pleiteada pelos amigos do turfe paranaense.
E após 19 meses sem corridas, nosso turfe foi reconstruído com muito esforço por uma gestão acima da média nacional, liderada pelo empresário Paulo Irineu Pelanda, amparado por uma diretoria eficiente, laboriosa e unida, como nunca se viu em toda história desses seus 145 anos de existência, desde 2 de dezembro de 1873.
A “Veterana” entidade paranaense de turfe é a segunda mais antiga do Brasil, fundada apenas cinco anos depois do Jockey Club Fluminense e o segundo clube social de Curitiba, após o pioneiro Clube Concórdia, fundado pela colônia alemã em 1868.

 

 
 

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