Renato Gameiro |
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UM ASSUNTO IMPORTANTE Qualquer mudança é difícil de ser aceita pela elite dominante. Afinal, mudar para que, se as coisas estão funcionando às mil maravilhas, pelo menos para essa elite? Com o tempo qualquer elite, mesmo as advindas de origens revolucionárias, se torna reacionária a qualquer nova idéia. A história da humanidade está repleta de exemplos. E isso acontece com governos, sociedades, clubes e até em família. O inventor da escrita foi preso, pois na visão do regente local, aquilo faria as pessoas perderem a memória, já que não precisariam mais dela no momento que pudessem tomar notas. Bizarro, mais verídico. Tintoretto foi execrado por ter praticamente aberto as portas para um novo período dentro da escola Veneziana, com seu St. Georges and the Dragon, que hoje é responsável por muitas das filas na National Gallery de Londres . Dá para acreditar que o primeiro trabalho de Pablo Picasso foi apresentado em Paris , na Feira Internacional de 1900, quando o pintor catalão foi escolhido para representar seu país, e completamente rejeitado pela crítica especializada? Tão indiferente foi a reação do público em relação a Les Derniers Moments , que Picasso cobriu a tela, três anos depois com outra pintura, La Vie . Nesse mesmo ano, um doutor austríaco chamado Sigmund Freud, lançou o seu famoso The Interpretation of Dreams , e nada menos de oito anos foram necessários para que sua primeira edição de 600 exemplares esgotasse. Quando na Suíça, a sociedade das sociedades, Albert Einstein em 1905 obteve seu doutorado na Universidade de Zurique, com uma tese sobre uma nova teoria da relatividade, não foram poucos, que acharam ser ele um completo idiota. Em 22 de janeiro de 1907, no Metropolitan Opera de New York, o público de pé vaiou a estréia de Salomé, obra do mais importante músico da época, Richard Strauss, baseada em um romance do não menos importante Oscar Wilde. Logo, novas idéias, mesmo que brilhantes, são inicialmente vistas com extrema precaução por aqueles que detêm o poder de promulgá-las ou levá-las adiante. Sejam nas artes, na ciência e até na medicina. A reação, cria a inércia e esta por sua vez é o primeiro passo da estagnação. Estamos entrando em um ano novo. O mundo viveu bilhões de anos mais, antes de Cristo, mas o desenvolvimento da humanidade se fez de maneira lenta, devido à reação de elites, religiosas, sociais e governamentais. O turfe brasileiro necessita de uma mudança. Uma mudança profunda que envolva significativamente os alicerces da atividade, pois a estagnação é comovente. Até as mais dispersas moscas da Praça Paris são capazes de notar este fato. De maneira alguma sou o arauto do apocalipse. Isso é dito, redito e defendido em prosa e verso, desde que comecei a freqüentar o Jockey Club, há muitas décadas. Por dirigentes, jornalistas e profissionais. Eu arriscaria a apostar que até os reacionários e detratores do óbvio, concordam comigo. E o que aconteceu, desde então? Pouco. Praticamente nada, em comparação ao que foi feito por outros centros turfísticos, como os Estados Unidos, França e Itália. Por que não juntar oito a dez advogados militantes das tribunas sociais da Gávea, Cidade Jardim, Tarumã e Cristal, para tentar colocar um projeto que viabilize pelo menos algumas destas necessidades prementes, tais como: 1- Uma prova científica de que as infecções que fazem-nos mofar sete dias em uma quarentena nos Estados Unidos e 30 dias na Europa, estão definitivamente extintas em nossos principais hipódromos e centros criatórios. Com esta prova oficializada por nosso Ministério da Agricultura e levada, aos Ministérios norte-americano e britânico, criem uma forma mais amena para exportarmos nossos corredores. 2- A formação de quarentenas oficiais dentro de centros de treinamento em nossos quatro principais Estados relacionados à atividade e aceitas em centros de maior projeção turfística, de forma que possamos fazer em último caso nossa quarentena aqui, sem perda de poder atlético. 3- Um trabalho sobre a importância social dessa atividade, com números que determinem quantas famílias dela dependem e das vantagens financeiras que ela pode trazer ao governo, se bem administrada. Isso trazido para as autoridades responsáveis poderia exercer uma certa pressão até na limitação de taxas. 4- Um projeto publicitário que demonstrasse o alto poder financeiro do público turfístico e que cativasse os órgãos de comunicação. 5- Criar projetos de apoio, como o francês, para o incentivo de elementos nascidos na França na premiação de corridas e o italiano para criação, com a possibilidade de importação de matrizes e sementais. Ambos projetos, estão motivando os investidores tradicionais, como também trazendo novos interessados. E haveria dez ou doze mais idéias a serem exploradas, todavia, não sou o dono da verdade, nem ao menos a pessoa indicada para trazer idéias. Vivo desta atividade, e portanto, tenho que gastar o meu tempo ganhando minha subsistência. Para tal é preciso que a atividade se mantenha viva e em ascensão. E por isso apelo aos advogados que militam no turfe para que se unam e tentem colocar algo oficial que possa ser apresentado a nossas autoridades. Falo em causa própria? Claro que sim, como deveriam igualmente falar, profissionais, empregados, criadores, proprietários, dirigentes, enfim, todo e qualquer ser humano que de alguma forma tire o mínimo proveito desta atividade. Nem que este proveito seja apenas emocional. No final do século XIX, Sir Henry Campbell-Bannerman ao ser trazido pelos liberais a ocupar o cargo de primeiro ministro britânico, aceitou uma dura realidade: “Resultados nunca são atingidos sem um número de fracassos. Fracassos, são necessários degraus para se alcançar sucesso”. Felizmente Tintoretto, Picasso, Freud, Einstein e Strauss souberam conviver com seus fracassos, não se intimidaram e com o tempo se transformaram nos artífices que foram em suas respectivas modalidades. Infelizmente, o inventor da escrita, não teve tanta sorte... No caso do turfe brasileiro, a escada é mais longa ainda e, já que nos mantemos estagnados nos primeiros degraus, sem tentar sequer algo que mesmo transformado em fracasso, é chegada a hora de uma ação integrada para se construir um possível sucesso. Mas sempre é bom ter em mente esta máxima da cultura oriental: tirar lições de seus próprios erros é ser inteligente. E sábio é quem não repete o erro dos outros.
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