De volta ao passado

Tributo a Um Goleador do Passado
Marco A. de Oliveira

Por vezes escrever somente sobre o turfe – mesmo que o semanário seja sobre isso – torna-se repetitivo. Então, associando o esporte das rédeas ao futebol, outra paixão esportiva, trago hoje algo sobre alguém que marcou seu tempo estufando as malhas adversárias como autêntico talento do futebol dos anos 50 e 60 e que, há um bom tempo, dedica-se também a seu esporte favorito pós-quatro linhas, em seus momentos de lazer, as corridas de cavalos.
Quando estive na cidade Princesa do Sul no primeiro final de semana de agosto último, por ocasião do G.P. Jockey Club de Pelotas, aproveitei para visitar um amigo assíduo frequentador do Hipódromo da Tablada e que alegrou ao menos quatro torcidas de nosso interior com seus gols de – acima de tudo – oportunismo, censo de colocação e discernimento na conclusão. Refiro-me ao Canhoto, cuja versatilidade fez dele um camisa 9, 10 ou 11; sempre com a saga de farejar qual um sabujo o gol adversário. Fernando Oliveira Guimarães, hoje casado com a professora de História Maria de Lourdes Rabassa, com quem vive no bem montado apartamento na cidade de Pelotas, onde fui recebido para um bate-papo amistoso. Aos 83 anos, em perfeita saúde e conversa fácil com uma memória invejável, Canhoto nos falou um pouco do muito que nos proporcionou naquelas velhas tardes de final de semana.
Tudo começou nos juvenis e logo a transferência para o Fantasma do Fragata, em 1955. Ali, no nosso G.A. Farroupilha, conheceu o hoje torcedor símbolo do Campeão por Cem Anos, o popular “Trem”. Aliás, seu Guilherme diz que foi a partir da amizade com o então promissor artilheiro Canhoto que tornou-se fervoroso torcedor do Farroupilha. Sua estreia nos profissionais foi algo complicada. Depois de um primeiro tempo onde nada dava certo, o treinador o chamou no intervalo e deu-lhe um voto de confiança, isso lhe encheu de segurança. Esquecendo o nervosismo, típico de uma primeira partida, voltou para o segundo tempo e anotou dois gols em cobranças de falta (uma de suas especialidades aperfeiçoadas ao longo do tempo como profissional). Terminado o jogo, comemorou a vitória de virada sobre o E.C. Floriano. O propalado treinador não era outro que não o inesquecível Gen. Plácido Nogueira, de tantos serviços prestados ao clube. No Farroupilha, Canhoto jogou por mais de cinco anos, sendo Campeão do Interior e Vice-Campeão Estadual em 1959, formando um ataque que para ele foi o melhor dos quais participou. Só para recordar: Toquinho – Lelo – Canhoto – Welington e Zé Francisco. O lépido Toquinho fora aspirante no Grêmio Porto-Alegrense, Lelo – o popular “touro” – tinha um vigor físico e raça invejáveis -, o próprio Canhoto – artilheiro com a n°. 9 às costas, Wellington “borboleta” – pequeno, ágil e autor de um gol antológico – e o Zé Francisco – um ponteiro autêntico com chute potente e surpreendente. Foi com um ataque praticamente idêntico – naquela época os jogadores permaneciam por bem mais tempo nas equipes o que garantia um entrosamento perfeito – que o Farroupilha surpreendeu o Grêmio em pleno Olímpico fazendo 1x3 em partida válida pelo Estadual de 1961. Ano em que o time pelotense passou incólume também pelo Campeão da temporada, S.C. Internacional, empatando em pleno Estádio dos Eucaliptos. Contra o Grêmio, inclusive, Canhoto deixou sua marca no citado prélio. Sua passagem pelo Fantasma foi encerrada no final daquele ano, com o título de Campeão do Interior. Em 1962, transferiu-se para o G.E. Flamengo de Caxias do Sul (hoje S.E.R. Caxias). No clube da então chamada Baixada Rubra, Canhoto provou também sua versatilidade, jogando tanto na posição de origem como na meia-esquerda ou – principalmente – na ponta-esquerda, sem nunca abandonar o oportunismo e a característica de goleador. E foi ali que – segundo o próprio Canhoto – anotou os dois gols mais marcantes de sua carreira profissional. Um deles contra o S.C. Internacional, em prélio válido pelo Estadual de 1962, na vitória de 3x2 para o conjunto caxiense contra o postulante ao Bicampeonato. Este tropeço foi fatal para as pretensões coloradas. O outro, pela Seleção Fla-Ju que representou o Rio Grande do Sul no Campeonato de Seleções Estaduais, contra a Seleção Catarinense, deslocando o goleiro. Em 1963, ainda pelo Flamengo de Caxias – onde ficaria até o final de 1965 – Canhoto excursionou com o clube pela Argentina. Lá, ao lado de nomes como o goleiro Negri, o centroavante José “da bica” e o versátil Gitinha, confirmou novamente a artilharia com várias conquistas na gira que se estendeu por maio e junho do citado ano. Canhoto – diga-se de passagem – foi vice-artilheiro do Campeonato Gaúcho em duas temporadas seguidas, 1962/1963, secundando respectivamente Paulo Souza (o popular Lumumba, então no C.E. Aimoré) e Marino (artilheiro pelo Grêmio Porto-Alegrense). Findo o período caxiense, Canhoto transferiu-se para o futebol riograndino envergando a camiseta do S.C. São Paulo. Pelo clube caturrita da Linha do Parque, atuou novamente tanto de centroavante como ponteiro-esquerdo, mantendo a vocação para o gol e sagrando-se Campeão Citadino em 1966, tendo como colegas o goleiro Oscar Urruty, o já veterano centro-médio Nadir (ex-Grêmio), além do então jovem revelação Vádi. O peso dos tempos, contudo, foi chegando e nosso artilheiro retornou aos pagos da Princesa do Sul em 1967. Atuando pelo E.C. Pelotas, foi titular na maior parte do Estadual da temporada. E ali, no clube auri-cerúleo da Boca do Lobo, onde iniciara como juvenil, pendurou as chuteiras. Canhoto vivenciou também momentos como treinador. Ao final da amistosa conversa, indaguei ao goleador do passado quais os melhores defensores com os quais defrontou-se, ao que respondeu sem exitar: “Ruarinho e o capitão gremista Enio Rodrigues”. Daqueles com os quais jogou no antigo Farroupilha, destacou o zagueiro Sinval – que atuava bem em qualquer setor da defesa ou até mesmo do ataque – e o lateral-direito Valério – um craque na posição que lhe valeu a titularidade e três conquistas Estaduais pelo Grêmio entre 1962 e 1964 –.
O amigo Canhoto, lembrando que “filho de peixe, peixinho é”, é pai do ponteiro-artilheiro Celso Guimarães – de tantas glórias pelo E.C. Pelotas nos anos setenta e oitenta –. Possui também uma filha, Silvana, ambos de seu primeiro casamento. Dedicando esta matéria como presente de aniversário ao amigo Canhoto, completando mais uma primavera no próximo sábado, encerramos nossa reportagem sobre um autêntico “turfista do futebol” em nossa seção desta semana.

Canhoto em quatro momentos no comando do ataque dos clubes em que marcou época: G.A. Farroupilha, G.E. Flamengo, S.C. São Paulo e E.C. Pelotas.

 

 

 
 

© 2018 - Jornal do Turfe Ltda.
Copyright Jornal do Turfe. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do Jornal do Turfe.