Renato Gameiro
 
 
 

DE TUDO FICAM TRÊS COISAS

         Vale a pena existir. E explico por que.
Um dia, ao ir à casa de minha mãe em direção à praia, atravessei a Praça General Osório em Ipanema, no Rio de Janeiro e deparei-me com Fernando Sabino, já em idade avançada, lendo em um banco. As pessoas passavam por ele e pareciam não notá-lo. Aquilo me calou fundo e me senti com coragem de sentar a seu lado e puxar um fio de conversa. No meio da mesma, lhe confidenciei que tudo dele havia lido e que escrevia e que, um dia, gostaria de me tornar escritor.
Ele gentilmente me pediu para falar de alguma coisa que tivesse escrito e foi aí que eu vim com aquela minha ideia maluca sobre o livro que depois acabei escrevendo sobre um submarino na Lagoa Rodrigo de Freitas em que um capitão do exército acreditava que era parte de um complô nazista de raptar o então presidente Getúlio Vargas.
Fernando Sabino, por educação ou talvez mesmo por ter gostado, deu uma boa gargalhada e e recitou um poema, escrito por ele, que para mim soou como um incentivo. E complementou dizendo que eu levasse a ideia avante e que se um dia escrevesse sobre o tal submarino, que trouxesse para ele ler e assinar um prefácio. Acabei escrevendo, mas, quando terminei, Fernando Sabino, infelizmente já nos havia abandonado e eu acabei tendo meu prefácio escrito por outro herói de minha existência, o Chico Anysio.
O encontro se deu em 1987, ano em que me transferi para os Estados Unidos. O poema, que depois copiei de um de seus livros, assim dizia:

De tudo ficam três coisas.
A certeza que estamos começando.
A certeza de que é preciso continuar e
A certeza de que podemos ser interrompidos antes de terminar.
Fazer da interrupção um caminho novo,
Fazer da queda um passo de dança,
Do medo uma escola,
Do sonho uma ponte,
Da procura um encontro,
E assim terá valido a pena existir.

         Guardei estas palavras, como disse anteriormente, como um grande incentivo. De um libriano, como eu, que nos deixou no início deste século.

         Amigos, inimigos e aqueles que não fedem nem cheiram, tenham certeza de uma coisa: não só vale a pena existir assim como vale a pena lutar por um turfe brasileiro melhor. Mesmo que tenha que se nadar contra a maré, e o mar esteja infestado de tubarões. E muitos então devem perguntar por quê? E eu respondo citando que uma criação capaz de gerar Much Better, Itajara, Pico Central, Siphon, Bal A Bali e dezenas de outros vale a pena, pelo simples fato de já ter provado ser ela capaz.
Nossos haras estão de parabéns, pois, mesmo com uma genética inferior, são capazes de criar atletas de nível internacional.
Acertar não é o que sempre se consegue, mas o fato de um esforço, naquela que você considera a direção certa, vale a pena existir. Não importa que menos de 2.000 pessoas tenham lido o Submarino da Lagoa Rodrigo de Freitas. Para mim, o importante é que ele foi escrito, publicado e lido. Não importa que Hard Buck tenha ficado a alguns centímetros de meu sonho. O fato de ter tentado para mim faz toda a diferença, pois meu sonho quase se tornou uma realidade. Não importa que seu time de futebol ou sua escola de samba não consigam o título. O mais importante é que eles estão ainda vivos e na luta. Como diria Fernando Sabino, do medo uma escola, do sonho uma ponte, da procura um encontro, e assim terá valido a pena existir.

* Patrocínio - Stud Smith de Vasconcellos, Stud H & R, Stud Magic Island, Haras Tango e Haras Santa Rita da Serra.

 

 

 
 

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