Renato Gameiro
 
 
 

A PIRÂMIDE INVERTIDA

         Estava tomando café da manhã quando algo soou claro em meus ouvidos. A maior forma de censura se chama o politicamente correto, onde tudo passa a ser medido e especificado, segundo determinados parâmetros estabelecidos por mentores espirituais. Eu penso que o homem nasceu livre e vem ao mundo capaz de fazer o que melhor lhe der na telha. Mas tem que ter telha...
A evolução em qualquer atividade, geralmente, nasce de uma rivalidade, pois a disputa é um dos elementos mais revigorantes já citados na humanidade. Em nível internacional, tanto nos carros das marcas Ferrari x Lamborghini, como na política, democratas e republicanos, como no turfe, Coolmore x Darley, o que se sente é uma tentativa de melhoria técnica e operacional, a cada ano que passa.
No Brasil, houve e existem ainda grandes rivalidades: PTB e UDN, Internacional e Grêmio, São José & Expedictus e Mondesir. E isto não quer dizer que sejam ou foram inimigos. Apenas rivais.
Existe uma tendência no Brasil de o que se não entende é genial. Vide o “economês”. Quando a mal fadada Dilma apresentava aquelas visões inexequíveis de ventos encaixotados, metas nunca traçadas, dobradas quando alcançadas, para muitos poderia ser um toque de genialidade. Não era nem nunca foi. Era apenas uma idiota dizendo idiotices.
Assim, nas grandes rivalidades, naquelas que realmente captam a atenção de todos, existe mais genialidade que idiotice. Por isto, querer ganhar de uma coisa inferior, não o torna superior. Apenas, “menos pior” que seu adversário. Assim ajudar um ao outro, com troca de ideias, informações e possíveis trocas de conhecimentos, só ajuda à atividade como um todo. E, a partir daí, que o melhor vença.
O que mais admiro na Juddmonte, em H.H. Aga Khan, e em outros potentados turfísticos internacionais são suas respectivas capacidades de enfrentamento no mais alto nível de competição.
Estamos perdendo, no Brasil, este nível de competitividade pelo êxodo de alguns grandes proprietários para países vizinhos ou por simples abandono de outros, da atividade.
Sei que tem muita gente que não dá a mínima importância à mãe. Não a própria mãe. Digo à mãe do cavalo de corrida. Isto é um erro. Como também é um erro achar que, se acontece no Brasil, passa a ser uma regra geral. Não é. Na grande maioria das vezes, o que acontece no Brasil não acontece no turfe de primeiro mundo do hemisfério norte. E, se tivéssemos a mesma conduta de investimentos destes ou, pelo menos, a mesma orientação técnica, certamente teríamos um turfe ainda melhor e, com certeza, bem mais competitivo.
Sempre tive certa dúvida sobre o moderno Derby Paulista, pois esta grande prova do turfe brasileiro está devendo um grande ganhador. Craque não tenho visto nenhum desde Quari Bravo. Tenho a minha atenção mais direcionada ao Ipiranga. Mas, como gosto não se discute, vamos aos fatos.
Nos principais embates internacionais, da milha e meia, 87,2% dos participantes têm como mães éguas que conceberam seus produtos, com nove ou menos anos de idade. No Derby Paulista deste ano, dos 18 participantes, apenas quatro (22,2%) o conseguiram fazer. Notaram a coincidência? É o que chamo de pirâmide invertida. O que é ruim para um, - 12,8% - é bom para outro 77,8%.
Sinto-me à vontade, pois adquiri a mãe do ganhador, Galope Americano, da família Smith de Vasconcellos para o Haras Santa Rita da Serra, em um determinado período da vida útil desta égua e também do 9º colocado, Ouro da Serra, para o Stud Estrela Energia, quando esta era ainda um yearling. Outrossim, o que me deixa pouco à vontade é constatar que os dois primeiros colocados foram concebidos quando suas mães tinham, respectivamente, 18 e 15 anos. Não vejo isto acontecer com frequência no turfe de primeiro mundo.
Há de se notar que das 18 mães, quatro não são de origem brasileira. Três são norte-americanas e uma uruguaia. Três também mães que não ganharam e uma que nem chegou a correr, o que é um fato também a se comentar, pois, o número de éguas que não correram e produzem ganhadores de Grupo no resto do mundo é relativamente grande.
Estas anomalias próprias de nossa criação tendem a se estender gradativamente, ainda mais com a falta de investimento em novas matrizes e a crescente manutenção das éguas no haras por um longo período de tempo.

1997 - 19 anos
Olimpo - placed

1998 - 18 anos
Galope Americano (PRIMEIRO COLOCADO) - winner

1999 - 17 anos
Bom Gosto - winner (USA)

2000 - 16 anos
Strong Arm - winner

2001 - 15 anos
Fortune Danz (SEGUNDO COLOCADO) - group 2 winner

2002 - 14 anos
Ouro da Serra - winner

2003 - 13 anos
Soldier Of Mondesir - winner

2004 - 12 anos
First Fighter - winner
Peter-Pilotto - group 1 placed
Zap Zap - group 2 placed (USA)

2005 - 11 anos
Cefas do Jaguarete - winner

2006 - 10 anos
Lo Felipe - stakes winner (URU)
Relevo de Birigui - unraced
Sibirskaya - winner (USA)

2007 - 9 anos
Rasgado do Birigui - group 1 winner
Xtreme Dream - placed

2009 - 7 anos
Arrocha (TERCEIRO COLOCADO) - winner

2010 - 6 anos
Cloud do Jaguarete - placed

* Patrocínio - Stud Smith de Vasconcellos, Stud H & R, Stud Magic Island, Haras Tango e Haras Santa Rita da Serra.

 

 
 

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