Sergio Bucoski, vice do J.C. do Paraná à “Queima Roupa”
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“SEM CULHÃO, NÃO HÁ ADMINISTRAÇÃO!”
2006, foi um dos anos mais críticos a existência do Jockey Club do Paraná, totalmente dependente do J.C. de São Paulo que, até mesmo, obrigou o cancelamento de uma reunião inteira no Tarumã, por falta de pagamentos, quando os animais já estavam no partidor. A entidade estava por um fio. As dívidas herdadas muito pesadas e, há anos, de difícil solução. As corridas, na época, somente voltaram, depois, com o aval da Associação dos Criadores do Paraná, presidida pelo Edison Mauad. Semanas depois toda a diretoria se demitiu, deixando a “cruz” na mão da “bola da vez”: Roberto Hasemann, o jovem de poucos 40 anos, presidente da Comissão de Turfe. |
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Era pegar ou largar... E as chaves nas mãos de quem? Porteiro não tinha mais também... Mas o Robertinho, aceitou, surpreendemente, o desafio juntamente com mais meia dúzia de jovens heróis-idealistas, ainda tontos diante da inesperada e perversa-obrigatória convocação.
Bem um dos diretores que toparam o desafio, é hoje o atual vice-presidente Sergio Bucoski, também um garoto de “calças curtas”, considerando as velhas e históricas eminências pardas do turfe paranaense.
LRR – Quem é você?
SERGIO - Curitibano, 31 anos, Bioquímico formado pela PUC-PR, Mestre em Administração formado pela PUC-PR, Acadêmico do Curso de Direito da Unibrasil, Empresário na área de Comércio Exterior e Tecnologia de Informação, Representante Comercial.
LRR – Sua tradição no turfe?
SERGIO - Acompanho o Turfe desde a infância, trazido sempre ao hipódromo pelo meu pai e tios, que transmitiram aos seus descendentes o amor pelo cavalo. Sou Sócio Ouro do JCPR desde os 17 anos, primeiro como dependente e posteriormente como titular. Meu pai foi pequeno proprietário, tendo alguns animais, onde a primeira aquisição se realizou no ano de 1988 no Haras Palmerini e tinha como nosso treinador o “Baiano”, saudoso Epaminondas Souza Santos. Atualmente sócio-proprietário do STUD CHAMPION SPIRIT.
LRR – No início, houve algum mal-estar com a diretoria que se demitiu?
SERGIO - Não houve mal-estar algum com a diretoria que saiu, pois alguns permaneceram e os que deixaram o clube já estavam cansados e desgastados com a situação.
LRR – E como e quando começou sua gestão?
SERGIO - Fomos (Sergio Bucoski e Ricardo Cwikla) convidados na época pelo Guilherme Ronconi que nos apresentou o Henrique Oliva. Conversamos com o Henrique e nos propusemos a colaborar, tentando levantar tecnicamente a situação do JCP. O Henrique dignamente nos abriu as portas para o trabalho e iniciamos um processo que posteriormente gerou um relatório. Estes dados foram apresentados aos turfistas na sede da Associação de Criadores, poucos interessados estavam presentes, e ali surgiu o convite para participarmos desta nova diretoria na qual me encontro desde o início das atividades.
LRR – Afinal, qual era o tamanho da “bomba”, tim-tim-por-tim-tim?
SERGIO - A situação era calamitosa, nunca tive contato com uma empresa tão deteriorada e falida. As dívidas tributárias corroíam nossas terras minuto a minuto, o Clube não pagava mais salários nem prêmios, 78 protestos, Ações Civis, Criminais e Trabalhistas para todos os gostos, estrutura de raia sem manutenção, salões e arquibancadas deterioradas e inativas, uma delas até foi alugada quando já encontrava-se interditada, sem crédito e conta bancária, sem recolher férias e FGTS dos funcionários, não possuía mais corpo jurídico, enfim uma dívida de quase R$ 30.000.000,00 (trinta milhões de reais) e com grande déficit mensal. Difícil!
LRR – Se o J.C. do Paraná, sempre teve áreas ociosas, pantanosas, inúteis, por que não foram vendidas antes?
SERGIO - Algumas áreas do JCP já foram vendidas anteriormente. Recentemente o acúmulo de dívidas, principalmente tributárias, dificultou muito a venda destas áreas. Explico: Para que você consiga subdividir a área comercializada e transferir a propriedade se faz necessária a CND (Certidão Negativa de Débitos) que logicamente o clube não possuía devido ao endividamento, fato é, que nem a Dação em Pagamento pela dívida de IPTU iniciada em 1997 conseguiu ser concluída na época, pois a Prefeitura de Curitiba exigiu a CND que não foi apresentada e travou a operação. Também um fator determinante foi a Lei de Zoneamento que enquadrava nossas áreas como Zona Especial Desportiva, onde condenava estas terras a um valor comercial muito baixo, devido a pouco espaço permitido para construções. Portanto, não venderam anteriormente porque era uma operação complexa que estava interligada ao pagamento de outras dívidas do Clube que obrigatoriamente deveriam ser sanadas e um Projeto de Lei que melhorasse nosso potencial construtivo, além é claro da situação política da época, que devido a rivalidade inviabilizava uma aprovação maciça em Assembléia Geral para autorizar tal comercialização.
LRR – E qual foi a “ginástica” técnica que vocês fizeram para poder comercializar essas áreas e também quanto rendeu efetivamente a venda total?
SERGIO – Tecnicamente ainda estamos tendo muito trabalho, pois necessitamos terminar a subdivisão e para isto necessitávamos concluir a dação em pagamento em conformidade com o requerido pela prefeitura, e operarmos a nova planta já contemplando os interesses do comprador e Jockey Club do Paraná. Para que este quebra-cabeça se feche são necessárias várias negociações jurídicas para eliminação dos protestos e penhoras, além da entrada de recurso para ir efetuando a quitação das pendências negociadas. Uma rotina complexa, mas que deve ser efetuada com cuidado, e infelizmente morosa por depender da boa vontade de terceiros. O valor esta disponível no site do clube.
LRR – E para colocar as coisas em ordem, foi preciso “cobrar” das velhas raposas crônicas e inadimplentes?
SERGIO - As regras da Tesouraria foram bastante modificadas. O Clube agonizava e parece que algumas pessoas se acostumaram a não pagar e explorar o JCP. Com o apoio do Tesoureiro Dr. Cresus Camargo, começamos a reformulação que no início foi bastante drástica e sem dúvida nos gerou algumas inimizades e bastante descontentamento. Enfim, hoje a realidade é bastante diferente, pagamos e cobramos em dia, e a esmagadora maioria já se acostumou com esta nova cultura e colabora bastante.
LRR – Infelizmente, quando há fatos positivos, há, quase sempre, uma reação “negativa”. Por exemplo, das más línguas: “-Acertaram a vida do Jockey e a deles também!”. Esse zum-zum-zum, acontece?
SERGIO - Sempre aconteceu e sempre acontecerá. Lamentavelmente existe esta Cultura Corruptiva no JCP e em qualquer lugar. Quando não se acham argumentos para se criticar um “Trabalho”, resta esta baixa alternativa. O Dr. Dante Franceschi titular do Haras Belmont Ltda uma certa vez me disse algo que nunca esqueço: “Guri, estas pessoas que pensam isto, sem dúvida é porque fariam isto se estivessem em seu lugar”. Ribas, estamos prestando contas de absolutamente tudo que estamos realizando, o JCP é exemplo de transparência, acho que isto incomoda bastante algumas pessoas, algumas poucas é verdade, mas isto não desestabiliza nossa diretoria, seguimos firmes.
LRR – E, atualmente, qual é o passivo do Jockey?
SERGIO - A Prestação de contas editada recentemente apresenta que mais de 50% de nossa dívida já foi paga. O restante caminhará rapidamente, pois o destravamento burocrático já foi quase todo superado.
LRR – Quais as fontes, atualmente, que sustentam as receitas?
SERGIO - O JCP não cobra mensalidade dos Associados. Temos receita de algumas locações, taxa de cocheiras, locação de salões festivos e as corridas que ajudam no giro financeiro.
LRR – Qual é o seu dia-a-dia, como administrador voluntário?
SERGIO - Geralmente estou no Clube todos os dias após as 17h30. Faço uma função que me agrada bastante, atuando em diversas áreas, principalmente Administrativo-Financeira, mas tenho um ótimo relacionamento com meus colegas de diretoria e sempre que convocado auxilio em projetos e problemas dos outro setores.
LRR – Qual é o seu relacionamento sócio-politico com os profissionais, jóqueis, treinadores e cavalariços?
SERGIO - Acredito que o melhor possível. Trabalho para aqueles menos favorecidos como os cavalariços, jóqueis e alguns funcionários, e é a situação desta gente que realmente me importa, e tenho certeza que hoje estão muito melhor do que se encontravam. Somos pessoas humildes que falamos a mesma “língua” dos profissionais, isto facilita o diálogo.
LRR – Por favor, especifique quais foram as principais ações tomadas recentemente com relação a esses profissionais?
SERGIO – Em parceria com a Associação de Criadores estabelecemos uma premiação aos pilotos que tiverem melhor desempenho na Reunião Turfística. Elevamos o valor pago aos cavalariços nas puxadas, que proporcionalmente é o melhor do Brasil. Financiamos a compra de animais, colaborando diretamente com os treinadores para melhor número de cavalos alojados. Isentamos da cobrança de taxa administrativa aqueles proprietários e treinadores que possuam cocheira fechada sem utilização. E logicamente com o aumento de prêmios foi elevada a comissão paga a todos os profissionais.
LRR – Das atitudes tomadas, algumas podem servir de exemplo, para outros Jockeys Clubs?
SERGIO - Ribas, tenho total convicção do projeto que estamos implantando. Acredito que agora, ou em muito pouco tempo todas as entidades terão que passar por uma situação semelhante, e estamos abertos para colaborar.
LRR – Hoje são três reuniões mensais com prejuízo ou lucro?
SERGIO - As reuniões infelizmente quase sempre operam em prejuízo. Não é privilégio nosso, o esporte infelizmente não é mais o mesmo, como o futebol não sobrevive mais somente das arquibancadas. Nos resta buscar alternativas e lentamente melhorar nosso movimento.
LRR – Há previsão para uma quarta reunião mensal?
SERGIO - A quarta reunião é uma conseqüência natural da estabilidade administrativa, e será implantada com responsabilidade quando for o momento.
LRR – E aos domingos? Um sonho previsto?
SERGIO - Reunião aos Domingos é algo que sempre pensamos. Quem sabe a gente consegue realizar mais este sonho.
LRR – Aponte, então, quais seriam as dificuldades, no momento, para as tão desejadas domingueiras?
SERGIO – Hoje teríamos poucos animais para a realização das corridas, e como o prejuízo é bastante significativo estamos aguardando o final desta etapa de saneamento financeiro, evitando gerar novas despesas, então estudaremos este assunto com muito carinho em breve pois reflete o desejo de todos.
LRR – Honestamente qual é o relacionamento político-social com São Paulo e Rio?
SERGIO - Com São Paulo, muito difícil. Nenhum diálogo e uma parceria sem projetos em andamento. Espero que o grupo de Revitalização do Turfe aproxime mais os dirigentes e isto mude. Com o Rio as tratativas são mais amigáveis. O atual presidente é muito receptivo, tem um pensamento empresarial bastante claro, e me parece ser um homem de negócios, o que facilita os entendimentos e nos traz futuras pretensões.
LRR – O presidente daqui, o Roberto Hasemann, não consegue ser ouvido pelo dinâmico presidente Márcio Toledo? Nunca?
SERGIO – Não me lembro do Roberto ter sido recebido uma única vez pelo Presidente de São Paulo para tratar de assuntos comuns das entidades. Espero que este quadro se modifique, pois é lamentável para as entidades e quem perde é o Turfe.
LRR – Qual é, então, a nossa dependência com relação à Gávea e Cidade Jardim?
SERGIO - Total, os tempos mudaram e o JCP não reagiu, criou uma dependência que hoje é a realidade, porém a recíproca é verdadeira, e São Paulo também conta com nossa receita como fundamental.
LRR – E agora, com tudo aparentemente em ordem, há correntes políticas pleiteando a direção do Jockey?
SERGIO - Olha Ribas, isto já era bastante esperado. Uma pena é verdade, em um momento tão positivo para o JCP onde seria muito importante a união e apoio de todos.
LRR – Nomes aos bois?
SERGIO – Não gostaria de explicitar este assunto porque a ressonância está sendo pequena e só fomentaria o episódio.
LRR – Técnica e administrativamente, o melhor e mais recomendável seria a continuidade da atual gestão?
SERGIO - Creio que sim. Temos um planejamento minuciosamente elaborado, e apenas 50% dele conseguiu ser implantado até então, devido principalmente a burocracia e morosidade da Justiça e Órgãos Públicos. Reconquistamos o respeito e a credibilidade para trabalharmos, e principalmente porque temos um Projeto Administrativo real para o JCP, e não um mero Projeto de Poder como vemos em alguns oposicionistas.
LRR – Como diretor, quais são os seus privilégios?
SERGIO - Absolutamente nenhum. Desafio a quem quiser, que pergunte a algum funcionário do Clube, ou colegas de trabalho se existe algum privilégio para nós. Pelo contrário, devemos dar o exemplo que não é o momento para privilégios.
LRR – Antigamente as diretorias iniciavam completas e terminavam com dois ou três gatos pingados. E a de vocês?
SERGIO - Nossa diretoria continua com 100% dos seus membros eleitos. Alguns diretores menos atuantes estão comparecendo ao Clube e encampando trabalhos.
LRR – Atualmente, quais são as maiores dificuldades administrativas do J.C. do Paraná?
SERGIO - O Jockey passa por um momento decisivo da sua reestruturação. Estamos trabalhando diuturnamente para resolvermos as questões jurídicas e tributárias e iniciarmos a segunda parte do projeto, que envolve o crescimento do esporte turfe como um todo, investindo na reconquista de público e logicamente na melhora de nossas receitas. Isto passa pela total reforma das nossas dependências e requer trabalho constante e incansável. Ainda somos uma empresa em recuperação, todo cuidado é pouco e sabemos que não temos o direito de errar.
LRR – Especifique quais são as melhorias de obras civis em andamento e suas razões?
SERGIO – As obras são gerais. Estamos reconstruindo as dependências físicas do JCPR. Foi uma solicitação da Secretaria de Cultura do Estado e Prefeitura de Curitiba, acolhida com gosto por nossa diretoria, uma vez que já estavam no planejamento geral, pois entendemos que só assim poderemos pensar em reconquistarmos público, pois o Clube estará apto a recebê-los de forma digna. A sede administrativa com sala de jogos e restaurante já estão finalizados. O Padoque está fantástico e em fase final, reformamos desde os bancos, cabines de transmissão, sauna e vestiário dos profissionais, lanchonete, até a sala dos comissários de corridas, que inclusive conta com móveis novos. As arquibancadas populares (em andamento) e a arquibancada social já possui um dos salões festivos pronto e encontra-se em fase de reforma geral dos sanitários, sala de associados, outros salões, arquibancada externa, sistema de hidrantes, projeto contra incêndio, tribunal social, enfim toda a grande estrutura física.
LRR – Quantas vezes, pessoalmente, pensou em entregar os pontos?
SERGIO - Várias. Mas não consigo imaginar retroagirmos aquela situação ruim, penso e acredito que em muito breve seremos não o maior, mas o melhor J.C. do Brasil.
LRR – Melhor Jockey, em que sentido? Sem dívidas? Com que melhoramentos e benefícios a mais que o eixo Rio-São Paulo?
SERGIO – Não gostaria de explanar, pois a situação com SP não é boa e pode parecer uma provocação desnecessária.
LRR – Francamente para administrar um Jockey Club, agora com mais “calmaria”, tem de ter culhão?
SERGIO - Sem dúvida! A pressão é constante, existe a natural torcida contra, e sabendo disto precisamos ter firmeza e cada vez responder com mais trabalho e realizações.
LRR – Afinal o Jockey é mesmo um grande abacaxi?
SERGIO - O Jockey é o melhor lugar do mundo. Os problemas estão sendo enfrentados. Ainda é bastante complexa nossa situação, mas sabemos exatamente onde estamos e onde queremos chegar.
LRR – Dê agora a resposta da pergunta que não foi feita?
SERGIO - Sim, acredito que é possível revivermos os “Bons Tempos do Turfe”. A nossa força de vontade e planejamento, aliada a experiência importantíssima dos nossos Conselheiros, e a fé daqueles que lutam pelo Turfe, nos guiarão por caminhos cada vez mais sólidos.
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