PARA SER UM BOM JÓQUEI (1ª PARTE)
Para ser um bom jóquei, muitos detalhes são necessários. Equilíbrio, habilidade, bom senso, confiança e intuição, mão de rédea, táticas de corridas, esses são alguns detalhes que vou apreciar a seguir.
1- Equilíbrio – Montar a cavalo é relativamente fácil para uma pessoa normal com pelo menos um pouco de equilíbrio. Mas montar um cavalo de corridas, e entrar em uma pista para trabalhar ou para correr, é muito diferente. A força, a potência, a velocidade de um puro-sangue, correndo em termos de competitividade e em grupos normalmente de 5 a 15 animais, com os naturais problemas de trânsito, constituem-se em risco e necessária habilidade. O equilíbrio de um bom jóquei é fundamental. Não é só saber montar e ter condições atléticas adequadas é importante a posição bem distribuída no centro de gravidade do cavalo, que é na cernelha, uma altura dos estribos que permita uma confortável posição na sela e também fora dela, um “balanço” que não perturbe o centro de gravidade. Um dos melhores jóqueis da Gávea quanto a “montar” bem, com boa estribarão, é o Marcello Cardoso. O problema do equilíbrio é muito mal interpretado por alguns jóqueis, que, por serem mais altos do que deveriam, encurtam muito os loros e com isso “crescem” muito quando da “tocada”, e pior do que isso, para manter o necessário equilíbrio, sobre uma “máquina de corridas” que se mexe aos pulos, aos saltos, movimentam o braço do chicote para manterem-se montados, e em conseqüência batem mais. Em vez de baixarem bem os estribos para uma cômoda posição e bom equilíbrio, fazem o contrário. Estribos muito altos têm como conseqüência natural o uso abusivo do chicote (Leguisamo, Rigoni e Bolino estribavam longo). Nas escolas de jóqueis, fazem muita falta professores de equitação.
2- Bom Senso – Se em um páreo todos os competidores estiverem bem treinados e forem de forças semelhantes, os que forem montados pelos melhores jóqueis certamente levarão vantagens.
Certa vez um turfista brasileiro foi a um hipódromo da Inglaterra, e logo após os primeiros metros de um páreo, perguntou a um inglês aonde ia o cavalo pilotado por Lester Pigott, então considerado por muitos o melhor jóquei do mundo. A resposta foi imediata, se o ritmo da corrida estava forte, Pigott estaria entre os últimos, se estivesse normal ele estaria no meio, se suave certamente Pigott estaria entre os primeiros. É uma questão de bom senso. Um cavalo que costumava correr para uma atropelada não necessita obrigatoriamente de correr entre os últimos, tudo depende do ritmo da corrida, e se ele está suave, o atropelador “tem que ir para frente, pois um ritmo suave aniquila as suas possibilidades de descontar na reta, e o jeito é correr na frente ou perto e atropelar na reta como se estivesse vindo de trás. O ritmo da corrida é fundamental, e aos jóqueis experientes, como, por exemplo, Carlos Lavor na Gávea, sabem muito bem disso e levam vantagem. Há que ter noção da velocidade, do ritmo”.
No dia a dia das corridas, os melhores jóqueis não só correm bem os seus animais aproveitando as características individuais, como também se utilizando eventuais movimentos inadequados no percurso por parte dos aprendizes e dos jóqueis de menor competência. Os erros dos outros jóqueis, somados à habilidade e ao raciocínio, muitas vezes proporcionam aos jóqueis melhores e mais experientes vitórias com cavalos aparentemente piores.
3- Confiança e Intuição – Eu conheci jóqueis considerados de primeira grandeza que sentiam a diferença entre correr páreos comuns e os de importância maior. A pressão psicológica é muito grande para alguns. Jóqueis novos e também os experientes, muitas vezes ficam pálidos, visivelmente sentindo a grande responsabilidade. É nessa hora que os “frios”, os “gelados” levam vantagem. Para não falar do Rigoni, do Bolino ou do Juvenal, que montavam um Grande Prêmio como se fosse um páreo para perdedores, para não falar daqueles que já não montam, na Gávea o “gelado” é Carlos Lavor, a emoção não o perturba, pelo contrário, o incentiva, os nervos não o incomodam.
Essa confiança, aliada à intuição, decide muitas vezes páreos importantes. Nesses páreos importantes, os jóqueis sabem que não podem errar, têm que montar com confiança em si próprios e nos seus pilotados, e também confiança em suas intuições. Nos páreos mais importantes, correm os melhores cavalos e os melhores jóqueis, e nervos no lugar representam boa vantagem.
4– Mão-de-rédea – Em corridas de cavalos “mão-de-rédea” é a sensibilidade do jóquei na intensidade do toque do bridão na boca do cavalo, através do comando das rédeas. Francisco Irigoyen era um príncipe, com suas rédeas longas e um toque refinado, Ulloa com rédeas mais curtas e bridão ajustados. O Bolino montava de freio, e muitas vezes, para tirar um pouco de apoio, ele baixava o freio na cabeçada, o cavalo ficava menos impetuoso, mais apto ao toque das rédeas. O Rigoni era fantástico, era comum trabalhar um cavalo voluntarioso, e logo que ele montava o cavalo saía manso, sem fazer força, tinha uma “mão-de-rédea” maravilhosa. Eu nunca perguntei, mas um dia ainda vou perguntar ao Bolino se foi ele quem inventou o tal do baixar do freio para tirar o apoio, ou se ele aprendeu isso com o Rigoni, que era o seu ídolo.
A falta de professores de equitação nas escolas de jóqueis resulta em verdadeiras agressões, cavalos “sem boca” são alvo de força bruta, até de “socos”. Não faz muito tempo, em Cidade Jardim, um dos melhores jóqueis brasileiros mostrou absoluta falta de “mão-de-rédeas”, tentando diminuir o ritmo da impetuosidade com forças e “socos”, botando fora um páreo importante. Foi na verdade um desastre. Cavalos mecânicos e professores de equitação, duas prementes necessidades de também prementes escolas de equitação.
5- Táticas – Falta de bom senso e de raciocínio rápido levam, ou trazem para o turfe, práticas incorretas. Vejamos basicamente três casos.
Um potro, ou cavalo velho, começa a sua seqüência semanal de trabalhos ditos fortes, em preparo para estrear, ou para reaparecer. Via de regra, os primeiros 200, 400, 600 e 800m são entusiasmantes, e daí para frente, de 1.000 metros em diante, muitas vezes os trabalhos apresentam-se não entusiasmantes. Para nos 800 metros a fase dos sonhos. Mas por que? É simples, a raça do puro-sangue de corridas suporta, normalmente e em média, cerca de 50 segundos sem respirar, é de um fôlego só. Páreos de 1.000 metros são corridos com tudo, ou quase, desde a largada, e é muito comum à vontade dos proprietários e dos treinadores em que seus cavalos larguem por dentro, junto à cerca interna, e com velocidade máxima. E é comum que, faltando uns 200 metros, eles cansem e se deixem ultrapassar. É claro isso, que sempre ou quase sempre se repete. Após cerca de 800 metros, o cavalo tem que respirar, não pode fazer 1.000m com tudo desde a partida sem respirar durante um quilômetro, é contra uma característica de sua raça. Páreo de distância curta corre-se não na ponta com tudo, não por dentro, mas colocado a uma distância do ponteiro que lhe permita alcançá-lo nos últimos 200m, poupado dentro do possível arrematando o final.
O Juvenal mostrou seguidamente isso com o Mensageiro Alado, grande campeão em páreos de 1.000m, sempre correndo por fora, por volta do 4º lugar, e atropelando no máximo nos últimos 400m, respirando até o momento de dar tudo. Os exemplos são muitíssimos. As minhas éguas Elisabeth (na Argentina), La Fiesta e Fama (no Brasil), foram ótimas corredoras em 1.000m, sempre correndo para uma atropelada final. Há que correr para uma partida final há que respirar.
Já nos páreos longos, a crença é correr atrás. Errado, páreos de longas distâncias deve-se correr na frente, pois é uma corrida aeróbica, de respiração, de pulmões, e querer que um cavalo corra, por exemplo, em páreo de 3.000m, mais de 2.000m longe e depois dê uma partida que alcance os ponteiros de 800 ou de 600m, não é mais racional do que correr na frente, ou perto, em ritmo conveniente, galope metódico, igual, em respiração regular, e quando for julgado conveniente acelerar dentro do possível, é mais lógico, mais produtivo, mais racional. Durante muitos anos os cavalos argentinos ganharam seguidamente o nosso GP Brasil, sempre na frente ou perto dos ponteiros, enquanto os nossos apenas galopavam nos primeiros 2.000m para atropelar nos 1.000n. Corrida de fundo é corrida de pulmão, atropelar forte é muito difícil para um cavalo que já correu uma boa distância e ainda tem que descontar uma boa diferença. Em tese, páreos de fundo devem ser corridos na frente, ou pelo menos perto do ponteiro, naturalmente quando o ritmo é normal.
Eu não poderia terminar este artigo sem falar no nosso campeão mundial. Jorge Antonio Ricardo construiu, com seriedade, esforço, aplicação, muito trabalho, absoluto profissionalismo com sacrifício até de sua vida pessoal, um merecido e espetacular sucesso. Todas as glórias ao nosso campeão mundial.
|