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ATÉ QUANDO VIVEREMOS DA EXCEÇÃO
Adolpho Smith de Vasconcellos Crippa, semana passada, participou-me de uma discordância pública entre os proprietários de Celtic Princess e um jornalista que hoje escreve no Raia Leve. Não fui muito a fundo na questão, pois realmente estas desavenças não fazem muito meu gênero, mesmo achando-as salutares, pois é da troca de opiniões que se chega a alguma conclusão. Ou pelo menos deveria. Não sei que final teve. E nem estou preocupado em saber.
Eu, particularmente, prefiro opinar naquilo que participo vendo, nunca no que ouvi falar ou apenas li na coluna de alguém. Isto não funciona em corrida de cavalo. Você tem que estar lá para sentir a coisa. Olhar e ver. Daí concluir já é difícil, que dirá chegar a conclusões de algo quem não estava in-loco para dar seu parecer técnico. Assim expressões como “apagadamente”, ou como “de orelhinhas em pé”, desculpem-se mas se perdem na imagem que se apaga, no raio da estrela cadente que, enciumada por ser incapaz de emoldurar a verdade da questão, se desfaz na calada da noite. Poético e sem nexo!
Vamos ao que interessa. Celtic Princess foi para mim não só a melhor potranca, entre as nascidas em 2004, como um elemento tremendamente diferenciado. Como não se via desde Colina Verde, nascida em 2003. Ambas bem superiores a, por exemplo, Light Green, que liderou a geração paulista por não ter enfrentado Celtic Princess que optou em correr contra os machos no Derby onde, em desabalada carreira, jogou fora a mesma já na primeira passagem pelo disco. Pois bem, tanto Colina Verde quanto Celtic Princess não conseguiram se adaptar ao sistema norte-americano, mesmo ambas tendo o tempo de aclimatação perfeito. Enquanto isto, Light Green, em um sistema que a meu ver é muito mais difícil de ser captado pelo cavalo brasileiro, o europeu, se saiu melhor do que as duas juntas, pelo menos até aqui dia 10 de março de 2010. O que diferiu: Light Green se adaptou e evoluiu. Em relação à Colina Verde e Celtic Princess, desconheço a sua adaptação, mas certamente não evoluíram. Regrediram.
Nunca as duas deixarão de serem as craques que foram em parte de sua campanha. Mas, como, por exemplo, Immensity, não conseguiram aqui luzir. No caso presente de Celtic Princess, que vi correr em Gulfstream, foi sempre tratada por dois profissionais brasileiros que sabiam de sua importância e ela não respondeu ao que dela era esperado. Isto até hoje. Amanhã poderá ser outra história.
A idade às vezes pesa no profissional, seja ele equino ou humano. Outrossim, não pesou na vida de, por exemplo, John Henry, ou mesmo de um Sandpit para se usar um exemplo nacional. Uma vez fui mal interpretado pelo Sergio Meneses – que é um dos gentlemen do turfe, pois ele leu apenas a parte do que disse em relação ao Sandpit. Na época, disse que um determinado cavalo não ganhava do Sandpit e o Sandpit, em suas últimas carreiras no Brasil, não ganhava do Much Better. Logo este cavalo dificilmente bateria a Much Better. E completei, mas o Sandpit de hoje dos Estados Unidos não é o Sandpit que corria contra o Much Better. Ele evoluiu e não sei se Much Better seria capaz de batê-lo nos Estados Unidos com pesos iguais. Mas infelizmente o repórter deve ter achado longa minha explanação e simplesmente cortou aquilo que somara à minha primeira frase.
Vou ser curto e direto, pois, em casos como estes, o antibiótico é melhor que a homeopatia. Um cavalo brasileiro, para ter sucesso nos Estados Unidos, tem que primeiro ser um diferenciado, como Pico Central, Virginie, Hard Buck, Siphon, Sandpit e outros que vocês conhecem bem. Aí ele tem que ter o tempo necessário para se aclimatar. Tem que se adaptar e, somando-se a isto assimilado, tudo que esta adaptação exige, evoluir. E evoluir muito. Qualquer quebra em um elo desta corrente compromete o futuro de todo e qualquer cavalo de corrido. Excetuando-se os fenômenos, pois, como o próprio rótulo sugere, são fenômenos. Logo, entidades acima da normalidade.
Com o espaço de uma semana, Fluke, o melhor potro da geração de 2005, e Celtic Princess foram à pista. Ele, numa carreira de mais difícil complexidade. Moral da história: perdeu uma sem nome, no último pulo. Celtic Princess nunca participou da sua carreira e ganhou de poucas adversárias. Se foi erro de seu jóquei, na condução da descendente de Damascus ou não, não me cabe analisar. Apenas expresso o que vi.
Fluke é um must por aqui. Respeitado como um cavalo que pode fazer diferença. Chegou ao mesmo nível de um Einstein, que recentemente se retirou das pistas. Seu Citation Hdcp (G.1) foi de arrepiar e o Kilroy (G.1) o seria também, se aquela danada daquela égua não viesse da maneira como veio. Possessa. Endemoninhada. Mike Smith parecia saber exatamente onde estava o disco. Mas esperem aí! Há de se convir que ninguém chega terceiro de Goldikova, e Proviso o fez. Logo, carreira não lhe falta e pedigree muito menos.
Comparar o pedigree de Fluke e Proviso é suicídio consentido. Ela é uma filha do consagrado Dansili (Danehill), numa mãe Woodman, numa mãe Rainbow Quest, numa mãe Nijinsky, numa mãe Klairon. Tem um Rasmussen Factor em Natalma 5x5x6, e é imbreed em Northern Dancer 4x6x5, Nijinsky 5x4, Blushing Groom 5x4 e Buckpasser 5x4. Dezenove chefes de raça. Coisa de primeiro mundo turfístico. Mas, na hora da cobra fumar, ela teve que suar sangue para ganhar de nosso Fluke no último suspiro.
Fluke, em contrapartida, é filho de Wild Event, em mãe De Quest, em mãe Campero, em mãe Quiz, em mãe Tang. Não é imbreed em ninguém. Não carrega Rasmussen Factor algum, tem só 12 chefes de raça e nada mais. Realmente no papel não dá. Todavia, na pista, quase deu.
Mas até quando iremos viver em função da exceção perante a regra?
* Patrocínio - Stud Smith de Vasconcellos, Stud H & R, Stud Magic Island, Haras Tango e Haras Santa Rita da Serra.
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