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DO STARBUCKS À NOSSA REALIDADE
Montada por dois professores e um escritor, em 1971, em Seattle, o Starbucks tinha como objetivo básico vender o café em grão. Com a entrada de Howard Schultz na sociedade, tudo se modificou. Em 1982, ao voltar de Milão, este demonstrou estar inebriado com a forma como os europeus – em especial os italianos – reverenciavam o ato de tomar café. Não o faziam como uma necessidade. E, sim, como um prazer. Imediatamente, a idéia de criar espaços para que as pessoas pudessem tomar café, veio-lhe à mente. Seus sócios foram contrários à idéia. Houve cisão na sociedade. Os três fundadores venderam o negócio para aquele louco sonhador e ele revolucionou o mercado.
De 1992, quando a nova companhia abriu seu controle acionário ao público, até 2006, a ação oferecida (SBUX) no mercado subiu 5.814%. Nada a reclamar. Em 2007, eram 16.226 lojas em 44 países distintos e um número imenso de funcionários. Importava-se 160 milhões de quilos de grãos de café e vendia-se 10 bilhões de expressos e correlatos. Aí, veio a crise imobiliária. Que ainda se mantém vigente por aqui. Em áreas afetadas por significativo número de forecloses, cerca de 600 lojas tiveram que ser fechadas do dia para a noite. Isso somado à entrada do MacDonald’s no mercado de servir cafés e à expansão neste sentido do Dunkin’s Donut, balançou, significativamente, as estruturas desta insinuante companhia que esteve bem perto de adquirir a United Airlines. Imaginem uma companhia que servia cafés comprando a segunda maior empresa aérea. Uma verdadeira inversão de valores.
O que mais me impressiona no caso específico de Howard Schutz é que ele contruiu seu império e não precisou inventar uma coisa nova, como fizeram Jeff Bezos (Amazon), Sergei Brin e Larry Page (Googles), Bill Gates e Paul Allen (Microsoft). Ele apenas convenceu o resto do mundo de que o velho hábito de tomar café era muito melhor quando realizado em suas lojas. O que não é uma verdade, pois comparar o ato de tomar café na Itália e no Starbucks é simplesmente impensável. Mas a coisa colou e o Starbucks decolou.
Não tão antigo como beber café, é ir às corridas de cavalo.
Logo, o que nosso turfe precisa, é convencer o mundo, fora de
seus portões, que o velho hábito de ir ao hipódromo é ainda bom.
Foi o que Howard Schutz fez, com o café. Na Argentina, no Chile e no Uruguai, as pessoas nunca perderam este hábito. Não o de tomar café. Sim, o de ir às corridas de cavalo. Estive recentemente em Buenos Aires e posso lhes garantir que, pelo menos em Palermo, a interação entre o público e o turfe é ainda intensa. No Brasil, infelizmente, sim, perdeu-se o hábito. A pergunta passa a ser por quê?
Várias, a meu critério, podem ter sido as razões. Enumerá-las tornaria este artigo cansativo. Logo, deixando-se de lado as causas, vamos diretamente às soluções. Sobre estas, tomo a liberdade de repassar parte de um e-mail que recebi do leitor Ricardo Macedo dos Santos. O homem que discute comigo a autenticidade daquele famoso grito clamando por um cavalo.
Estou rindo até agora acerca do nosso devaneio por conta de quem gritou “meu reino por um cavalo...” mencionado por ti em teu último artigo publicado no Jornal do Turfe (em que confessei sempre ler teus comentários, muito sábios quanto ao que se espera de um bom corredor e, mais ainda, numa criação de sucesso de cavalos de corrida). Mas, como aqui não se permite devaneios (risos), vou entrar num assunto que interessa sobejamente aos que gostam do turfe, qual seja, a situação de “débâcle” do turfe nacional... Aqui, não culpo só ao governo (é mais fácil empurrarmos para a viúva nossa incompetência...), mas principalmente a nossas elites turfísticas que, por conta de péssimas administrações através dos tempos, levaram o turfe nacional a esse estado de quase terra arrasada...
Na toada, acabei de ler notícia acerca da revitalização do turfe. Bem mencionado pelo articulista Jair Balla, o que já é um começo...
Aqui, meto minha colher: há tanto lobby para isso, para aquilo, mas inexiste (o que é imperdoável) até hoje uma melhor aproximação com o governo federal (onde já se viu um torneiro mecânico ser convidado para ir na tribuna do Jockey Club Brasileiro, por exemplo... Claro que essa imagem é por minha conta e risco, mas no fundo não duvido que convite algum tenha sido encaminhado ao presidente torneiro/companheiro Lula, ou, se feito, Gameiro tenha sido daquela forma mais formal e fria possível...).
Renato, veja-se, o exemplo dos clubes de futebol, com todas as falcatruas que lá ocorreram (e, ainda, ocorrem), mas que acabaram levando benefícios da União... Sei que não podemos comparar com o turfe, que não é e nunca será a grande paixão nacional, mas por que a paixão pelo turfe não pode ser resgatada como um dos esportes preferidos, como o foi no passado?
Sabe o que penso disso tudo? Que falta uma pessoa com habilidade para levar ao governo uma proposta séria de revitalização. Por que falo nisso? Porque vejo que se precisa formar um grupo que elenque uma série de propostas, inclusive e primordialmente de ordem fiscal e tributária, com vistas até mesmo à obtenção de benefícios dessa ordem pois, sem eles, não haverá a alavancagem do turfe, como um todo (incluída a indústria de criação de cavalos de corrida). Esse é o alvo a ser perseguido.
O que achas disso?
Quem sabe desse devaneio não saia uma idéia que ajude?
Não seria responsabilidade das administrações atuais assumirem essa responsabilidade?
Com festas, mas também com ações junto aos ministérios?
Ou quem sabe, as associações? Não seria mais produtivo fortalecerem-se as associações já existentes do que criar outras?
A imaginação sempre foi mais importante do que o conhecimento, já dizia Albert. Temos em nossas lides figuras tremendamente imaginativas, pelo menos fora do hipódromo, em seus negócios particulares. Não estariam estes apenas criticando e pouco – ou quase nada - trazendo de sólido e produtivo para dar um fim à estagnação que ora vivemos? Se for apenas estagnação é menos pior. Pode ser mais do que isso. Pode ser o início de uma decadência. Decadência de uma atividade sempre tratada com excesso de amadorismo. Não só no turfe.
Escolhemos técnicos de futebol sem experiência alguma anterior para assumir a responsabilidade de nosso mais importante esporte. Vide Falcão e Dunga. Colocamos cantores em ministérios. Elegemos para o cargo máximo de nossa nação alguém sem nenhuma experiência em seu currículo, que prove ter ele pelo menos dirigido uma prefeitura – por menor que seja - do interior de seu Estado. Essa á nossa maneira de dar um jeitinho nas coisas.
Escrevo desde o início dos anos 70. Pouco ou nada recebo por isso. Mas as pessoas que me auxiliam, recebem religiosamente pelo trabalho que me prestam. Às vezes, uma frase com percentuais, perdida em um texto, custa à minha equipe semanas de pesquisa e, a meus bolsos, centenas de dólares. Para tudo se resumir em apenas uma frase. Parece barato demais, devem pensar alguns. Mas não é. Publicar resultados, sem observações e análises é altamente válido. Mas também simples. Muitas vezes inócuo. Importante, mas não ajuda, da mesma forma como se esta notícia estiver igualmente consubstanciada com dados estatísticos fidedignos, que propiciem aos leitores tomarem decisões lúcidas e não apenas especulativas, baseadas em modismo. Se os leitores não notarem quão distintos são esses objetivos, paciência...
Com a ajuda de seis criadores, e aqui sito os quatro primeiros que já se engajaram nesta iniciativa - Stud H & R, Stud Smith de Vasconcellos, Stud Magic Island e Haras Tango – espero que o nível desta coluna possa ser mantido, talvez até melhorado e, o mais importante, meus abnegados pesquisadores mantidos em suas funções.
Assim sendo, afirmo: Não é fácil se inovar em nosso turfe. Todos querem mudanças, mas poucos são aqueles, meu caro Ricardo, que estão a fim de arregaçar as mangas e sair correndo atrás. Páginas e associações são criadas, aparentemente, visando mais a se tornar oposição a esta ou aquela gestão, do que propriamente tentando montar este lobby por você proposto, que nos auxilie a encontrar o túnel. E, um dia, quem sabe com muito trabalho e foco, de fazer-nos enxergar a luz no fundo do mesmo. Exceções existem e a elas tiro o meu chapéu.
Muito mais difícil foi fazer do Starbucks a potência que ele é. Porém, para tal, um homem partiu para o risco, pois acreditava em uma idéia e em seu poder de persuasão. A polêmica está aberta, pois o relógio do tempo não pára.
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