Renato Gameiro
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FUJAM DOS ELETRICISTAS - AQUELES QUE
CORTAM AS CORRENTES DE TRANSMISSÃO

Dias atrás iniciei uma nota dizendo: Pedigree não é massa de bolo. Assim imediatamente concluí que há de se convir que, quando todos os ingredientes são trazidos ao mesmo local e juntados da forma que a genética exige, se ela funcionar dentro de seus insondáveis mistérios, existirá uma razoável possibilidade do raio cair no mesmo lugar por uma segunda vez. Não será fácil, pois, mesmo no caso dos irmãos inteiros, não muito grandes são as chances da fórmula do sucesso funcionar por uma segunda vez.
Federico Tesio tinha uma forma de pensar. Ele tinha claro em sua mente que uma reprodutora selecionada pelos critérios por ele erigidos podia - se coberta com o cavalo certo - produzir um ser superior. Repetia o cruzamento e, quando este funcionava, sabedor que sua reprodutora, a partir daquele momento, tornara-se fashionable aos olhos do mercado, vendia-a. E, com o dinheiro, adquiria outra. Ademais que ele não era um homem de apenas um strike. Sabia como fazê-lo e repeti-lo em outra receita.
Realmente, levando-se em consideração as estatísticas que mantenho por minha própria iniciativa, garanto-lhes que poucas são as reprodutoras que conseguem produzir dois ganhadores de Grupo. Logo, dentro das leis das probabilidades, o velho senador italiano achava que uma nova fresh mare lhe daria, percentualmente, mais chances de acesso a novo sucesso.
Mas para isto tem que se saber, exatamente, o que está acontecendo em seu quintal. E, no caso dele, ele sabia como poucos.
O Príncipe Khaled Abdullah e H.H. Karim Aga Khan, para mim dois dos cinco mais importantes criadores da atualidade, usam outro método. Eles mantêm certas linhas maternas ao seu limite máximo. Chegam ao cúmulo de ter uma reprodutora que durante três, quatro, ou mais gerações nada tiveram de produzido de valor clássico por suas mães, avós, bisavós e tataravós, e aí em um dia o milagre genético se conclui e pinta uma Zarkava no pedaço. Todavia, em minha opinião, para que isto aconteça, são necessários três fatores dos quais não se pode abrir mão:
1) Muito dinheiro e inesgotável paciência;
2) O não uso dos chamados eletricistas. Aqueles reprodutores que cortam a linha de transmissão clássica;
3) Ter completo discernimento que campanha em pista é um louvável componente, mas não aquele que deva ser levado a sério com o maior vigor. A linha materna é o boi!
O criador que tiver como premissa básica a utilização de tão somente éguas clássicas ou aquelas que produziram elementos clássicos, normalmente, vai dar com os burros n’água. E estará fadado a fechar seu estabelecimento de cria com percentuais de acerto clássico abaixo dos 2%. Isto não é uma opinião. Isto é um fato, consubstanciado em resultados.
Semanas atrás, um excelente ganhador da Poule d’Essai de Poulains desbancou dois elementos considerados pela crítica especializada e por mim como os dois melhores milheiros do mundo em atividade na pista de grama: Goldikova e Paco Boy. Seu nome Makfi.
Makfi, em termos estruturais, tem um pedigree acima de qualquer suspeita, porém, quem teve o ensejo de analisar a campanha de sua mãe verá que seu criador estava mais centrado em somar um bom números de chefes de raça no pedigree e provê-lo de inbreeds que consolidasse os pontos fortes do mesmo, bem acima do que elas fizeram em pista.
Pois bem, para se tornar uma história curta, a mãe de Makfi não correu, sua segunda mãe não conseguiu sequer se colocar em duas temporadas e sua terceira mãe não correu. Mas elas descendem da linha 16-c, por um dos seus veios mais nítidos na produção de elementos clássicos. Makfi pertencia - por assim dizer - à banda podre. Outrossim, sua segunda mãe produziu a dois ganhadores de Grupo. Não tão boa como sua terceira mãe, que produziu sete black type horses, sendo quatro dos mesmos ganhadores de Grupo e três reprodutoras rotuladas de “classic producers”. Logo, Makfi, pertencia - por assim dizer - à banda podre. Aqueles chamados veios laterais.
Mas aqueles que montaram a estrutura do pedigree materno da mãe de Makfi tomaram o cuidado de não se utilizar de eletricistas, sempre acreditando que, um dia, o seu não ativo ramo traria à tona o classicismo que Sly Pola imprimiu à sua descendência. Foram usados na consecução primeiramente Val de Loir, pai da não corrida Green Valley, depois nela Irish River, o pai daquela que não conseguiu se colocar Irish Valley e, finalmente, Green Desert, o pai da também não corrida Dhelaal. E, no momento máximo, chegou-se a Makfi. O caso de Zarkava é ainda mais impressionante. E muitos outros podem ser relembrados à simples observação de seus respectivos pedigrees.
Não sou nem nunca serei o apologista do cavalo que não correu ou que foi matungo, mas por ter um grande pedigree deve ser levado à cria. Mas, nos casos das fêmeas, creio que devemos ser mais condescendentes, pois os resultados estatísticos assim o têm provado. O problema é driblar os eletricistas, principalmente os irmãos dos irmãos. Lembram-se de Arizelos, Golden Swan, Foyt, Circinus, Un Etendard...
Se para uma reprodutora é difícil produzir dois ganhadores de Grupo, imaginem dois reprodutores de sucesso!
Imediatamente alguém poderá me perguntar quais seriam os maiores eletricistas que tive o ensejo de notar. E eu diria que existem alguns que receberam chances enormes e se afundaram em sua total iniquidade reprodutiva. Quais? Que tal só entre os trazidos do hemisfério norte, que estejam já mortos ou abolidos do mapa, para não aumentar ainda mais o meu quadro de inimigos. Além dos acima citados: Adam’s Pet, Anatol, Arlequino, Bull Run, Bare Minimum, Battle Plan, Balzac, Benefice, Blue Stag, Basim, Capitain’s Gig, Crown Bowler, Capo Bon, Carnival Baby, Cavo D’Oro, Cut Above, Darda II, De Quest, Duke Of Marmelade, Eastern Mystic, Fortunate Dancer, Frankly Perfect, Frenchman’s Creek, Filago, Ghazwan, Gordian, Head Table, Infamous Deed, Kings Catch, Last Light, Magnasco, Mo Bay, Major Green, My Style, Never Doubt, Nalanda, Norwegian, Patch, Passing Base, Revê Dorê, Robamma, Regimen, Pardallo, Sirius, Sea Trek, Silver Supreme, Stouci, Sharannpour, Shangamuzzo, Sirius, Solstein, Seismic Wave, Sillage, Sporting Yankee, Tournevant, Tom Playfair, Tap Shoes, Turville, Van Houten, White Clover, Western… É mole?

* Patrocínio - Stud Smith de Vasconcellos, Stud H & R, Stud Magic Island, Haras Tango e Haras Santa Rita da Serra.

 

 
 
 
 
 
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