PRADA OU J. C. PENNEY?
Vou tratar hoje de dois assuntos que causam controvérsias. E, se causam controvérsias, são no mínimo importantes.
Tenho um blog, O Ninho do Albatroz, e muita gente que lê se sente à vontade de contatar-me. E o fazem amiúde. Oito a dez vezes por dia. Alguns destes usam o expediente do e-mail com as mais diferentes indagações. Umas inteligentes, outras ridículas, algumas fáceis de responder, outras, difíceis. E existem até as impossíveis de conceber, que dirá de responder. A partir daí, seleciono o que, em meu humilde parecer, é digno de atenção e respondo dentro de minhas possibilidades. Uns aceitam, outros não.
Outro dia recebi uma pergunta simples, direta, mas difícil de ser respondida. Como eu conceituaria um profissional de treinamento de alto nível? Seria aquele que ganha mais Grupos 1? O que tem o maior percentual de vitórias? O que fatura mais dinheiro para seus clientes? Que encrenca...
Acho que um passo deve ser dado antes de se escolher o profissional que será o responsável pelo treinamento de seus cavalos. Cada um tem que primeiro pensar o que quer do turfe e, então, procurar aquele treinador que mais resultados apresenta naquilo que você anseia conseguir. Eu não fujo à regra. E, desta forma, vou dar a minha opinião que, como se trata de uma opinião, é sujeita a gosto pessoal. Pode ser aceita ou rejeitada, mas é a que serve aos meus propósitos.
Eu vivo para as grandes carreiras, assim sendo aquele que ganha muito, mas não ganha provas importantes, não é o meu tipo de treinador. Tenho a mesma opinião em relação a reprodutores. Procuro por aquele que tem ou preferencialmente já provou capacidade de produzir o cavalo diferenciado.
Vejo alguns treinadores levarem seus cavalos a um determinado ponto e aí, em vez de arriscar um degrau maior, mantêm esses animais ali estagnados, ganhando carreiras sem importância e fazendo crer a seus proprietários que está provendo-o com um grande serviço. Destes, eu não preciso. É bom para encher uma parede de fotografias, mas não tão bom para preencher as prateleiras de taças.
Outro fator que deve ser levado em conta: chegar ao topo da pirâmide é difícil. Lá se manter, mais ainda. Assim sendo, treinador para mim tem que ganhar o Grupo 1 e manter o seu cavalo naquele nível por mais de duas temporadas. O João Maciel foi um exemplo deste tipo de treinador. Aqui nos Estados Unidos, por um período, o Richard Mandella foi aquele que mais teve este perfil. Tenho verdadeiro pavor daquele que prepara o cavalo para aquela carreira e, depois disto, o cavalo se torna incapaz de ganhar outra carreira similar pelo resto de sua existência.
Vou levantar um ponto polêmico. Acredito que o controle antidoping no Brasil seja rigoroso. Mas seria assim na Argentina? Se é ou não, não posso afirmar. Apenas observo que os cavalos brasileiros correm mais quando levados à Argentina do que quando aqui. Até aí alguém pode dizer que a turma por lá anda fraca. Possivelmente, acima dos 2.000m. Mas por que todos estes, depois de ganhar a grande carreira, são vendidos, mas nada conseguem de realmente produtivo quando levados a centros rigorosos em relação à medicação? Exemplos? São vários. Mas prefiro passar batido. Observem e notarão. Não é difícil achá-los.
O outro assunto é igualmente complexo. Inicio afirmando que sou daqueles que acreditam que o ser humano deve pagar por todo e qualquer prazer que queira desfrutar. Do cinema até o cruzeiro marítimo. E o cavalo de corrida é um deles. Assim, pagar por uma mesma coisa duas vezes, não consigo conceber. Vou explicar melhor.
Recebi por e-mail a comunicação que três cocheiras em Cidade Jardim estavam à venda. Apavorei-me, pois a debandada se tornou pública. Aí eu me perguntei: Venda de quê? Dos direitos de uso? Seria alguém que as adquiriu tempos atrás e agora estava tentando repassá-las? Diversas são as razões de alguém querer repassar este direito para outro. Não me cabe discuti-las. O que não entendo é como alguém pagou uma determinada quantia para poder usar um grupo de cocheiras em Cidade Jardim, na Gávea, ou onde quer que seja e ainda por cima é obrigado a pagar um aluguel sobre este direito já adquirido.
Teriam os primeiros que adquiriram este direito ao hipódromo ou a alguém que recebeu estes direitos de graça deste mesmo hipódromo? Há de se verificar, pois, se a situação for a primeira, este indivíduo não pode ser cobrado pela segunda vez. Assim, este não me parece o X do problema.
Chegou a meu conhecimento que o aluguel hoje de um boxe, ou melhor, de cada porta, já que são contados também escritório, farmácia, depositos, etc... em Cidade Jardim é de 115 reais. Logo, isto onera seu trato a um dono de cocheira, numa atividade em que nós precisamos mais dos proprietários do que estes proprietários propriamente de nosso esporte. Como deve haver mais de 80 conjuntos de boxes em Cidade Jardim, a grana mensal que entra é considerável. Será que os 27% que o Jockey Club retira do movimento de apostas não é suficiente para ele pagar as despesas das corridas, as taxações governamentais e a manutenção do clube? Seria necessário angariar este dinheiro extra, que pode vir a afugentar gente da atividade?
Não sou diretor e por isto não saberia como responder a esta pergunta, mas meu bom- senso apela a afirmar que o proprietário e seus cavalos são os mais valiosos bens desta atividade. Maiores até do que os sócios do clube, que podem desfrutar de outras amenidades que eles - e muitos nem cavalos possuem - e muito maiores ainda do que aqueles que administram a casa. Não vejo nos hipódromos brasileiros, por exemplo, como no hemisfério norte, você ser convidado a desfrutar de uma mesa especial com todas as despesas pagas pelo hipódromo, para os proprietários dos cavalos que irão correr uma prova de Grupo. Seria isto tão caro? Oneraria tanto o “budget” da agremiação? É um pequeno detalhe, mas, acreditem, faz toda uma diferença por aqui e na Europa.
É de meu conhecimento que os consultores internacionais, que vieram a São Paulo para oferecer parcerias, foram 100% contrários à cobrança de taxa por boxe ocupado por cavalo. Logo, isto deixa de ser apenas uma opinião pessoal minha e passa a ser uma observação feita por técnicos no assunto. Da mesma forma que estes acreditam que, em relação aos proprietários de cocheiras que mantêm boxes vazios, a cobrança deveria ser até maior. Eu diria que só estes deveriam pagar, pois, embora o Jockey Club de São Paulo e do Rio de Janeiro sejam clubes, eles vivem do cavalo de corrida. Quem não concordar que adquira um título do Paulistano ou do Country, pois tanto a piscina, quanto as quadras de tênis são melhores.
Cavalo de corrida é para quem pode. Nem sempre para quem apenas quer. E, quem pode gosta de ter um tratamento especial e preferencialmente não ser taxado duas vezes pela mesma coisa. Entrar em uma Prada é uma coisa. Na J. C. Penney, outra. Há diferença de preço, mas ninguém lhe cobra duas vezes pelo mesmo artigo.
Por favor, não vejam esta segunda parte do artigo como crítica. Não estou capacitado em discutir sequer se nossos clubes estão ou não sendo bem administrados. Ademais, além de eu ser sempre bem recebido quando visito Cidade Jardim e Gávea, complementaria que cada clube sabe das suas necessidades de manutenção. Apenas penso que deveríamos repaginar muita coisa em nossas corridas e criar formas de manter e atrair novos proprietários para a nossa atividade. E, mesmo sendo de importância vital a atração de novos, eu penso como minha avó Adelina, mais importante ainda é manter os que lá já estão.
* Patrocínio - Stud Smith de Vasconcellos, Stud H & R, Stud Magic Island, Haras Tango e Haras Santa Rita da Serra.
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